Ghost

WEB - O Melhor pra Mim - O Fim

Lua acordou aquele domingo com os raios do sol batendo em seus olhos. A superfície embaixo de si era lisa e confortável, não tão mole e não tão dura, na medida certa. Demorou pouco tempo para se lembrar onde exatamente estava. Quando se recordou, sorriu e se espreguiçou.

- Finalmente! - a voz rouca de Thur murmurou em seu ouvido. Seus lábios úmidos contra sua orelha a arrepiaram e ela foi forçada a abrir os olhos. Virou-se para o lado e ficou encarando seu namorado. Isso mesmo, namorado! Dois meses depois da declaração de amor no hospital, Thur a pedira em namoro de um jeito totalmente romântico, estavam juntos desde então.

Sua primeira relação séria era justamente com o cara mais galinha do colégio. Como conseguira tal proeza?

- Você tem que parar com isso, Thur. - Lua ronronou, o que fez Thur morder o lábio inferior. - Eu não tenho mais energia nem para pensar direito…

- Você não precisa pensar mais. - ele brincou, mordendo seu pescoço. - As aulas acabaram.

- Não é por que as aulas acabaram que nós temos que passar as férias inteiras na - ela pigarreou - cama. - ainda não havia caído a ficha totalmente de que ela não era mais virgem. Levara a virgindade por tanto tempo que ela mais parecia uma boa amiga do que um carma a se livrar.

- Não acredito que estou ouvindo isso da mesma boca que implorou por mais ontem à noite. - ele sorriu, malicioso.

Lua gargalhou, divertida. Passou a mão pelo rosto de Thur, sentindo sua barba por fazer. Aquele era seu último dia com ele antes da pequena turnê do Phoenix pelo Brasil.Nesse mesmo dia as notas do a-level sairiam, notas essas que decidiriam seu futuro e de seus amigos. Aquele era um dia muito importante em sua vida, o dia pelo qual havia estudado desde sempre, mas, incrivelmente, tudo que ela mais queria naquele momento era poder ficar deitada ao lado de Thur.

- No que você está pensando? - perguntou, quando percebeu que Thur não tirava os olhos dela.

- Em como eu consegui fisgar esse peixão. - ele passou os dedos suavemente por toda extensão de seu corpo nu. - Em como eu sou sortudo em tê-la na minha vida.

- Ah, meu Deus! Você não muda nunca! - ela riu. - Sempre chavequeiro…

- Não é chaveco, é a mais pura verdade. - ele resmungou, infantil.

Amava aquela garota de verdade. Nunca sentira algo tão forte em toda sua vida. Queria escrever músicas, assistir à filmes, comprar presentes, jantar fora… Queria estar sempre ao seu lado, mostrá-la as outras pessoas como um troféu, bajulá-la e cuidar para que nada desse errado em sua vida. E quando a noite caía queria unir seu corpo junto ao dela naquele labirinto de sentimentos e desejos. Só um simples gemido arrancado a força era o suficiente para que tudo aquilo que os dois haviam passado valesse a pena.

- Acho que deveríamos descer. Pelo barulho estão todos lá embaixo. - Lua sugeriu, levantando-se da cama e logo cobrindo suas intimidades. Thur achava graça em todo aquele pudor depois de uma noite inteira juntos. Era fofo.

Levantou-se também, sem a mesma vergonha dela, andando peladão pelo quarto. Resgatou as roupas da noite anterior e colocou-as de qualquer jeito. Quando se virou Lua já estava pronta, avisando seu pai pelo celular que só ia ver as notas e já estava indo para casa. O Sr. Blanco estava mais do que aliviado em saber que se livraria de Thur por um mês inteiro. Por mais que o garoto tivesse ganhado sua confiança, ainda preferiria que sua filhinha dormisse em casa, e não com um completo estranho. Mesmo que estivesse doando 26 horas do seu dia para cuidar de Diego, o mais novo meio-irmão de Lua, o Sr. Blanco estava sempre de olho nela, e Thur achava aquilo legal. “Toda donzela tem um pai que é uma fera!” ele cantarolava mentalmente quando seu pai dava crises de ciúmes.

Ele ficou observando ela se arrumar. Só de olhá-la pentando o cabelo fazia tudo aquilo valer a pena.

Esse era o grau do seu comprometimento.

- …eu vou abrir! Eu vou abrir! - eles ouviram a voz de Chay no andar de baixo e se entreolharam. Saíram correndo pelo quarto, desesperados. Chay não podia abrir as notas ainda! Era inaceitável! Aquilo era um ritual que eles teriam de fazer juntos!

Thur na verdade não se importava nem um pouco com as suas notas. Depois da liberação do pai ele teria toda a vida para dedicar ao Phoenix, e faculdade era a última coisa que passava em sua cabeça. Mas sabia que era importante para Lua e até que estava animado também: Tinha feito boas provas e queria saber o resultado.

- Chay, não! - Lua entrou na cozinha gritando e o amigo jogou o envelope longe. Tinha medo dela quando se tratava de rituais estúpidos para abrir as notas.

- Vamos logo com isso. - Mel virou os olhos. - Eu só quero saber se vou poder dançar ou não!

- Você vai passar, Mel. - Chay beijou o topo de sua cabeça, depois de resgatar o envelope do chão.

- Tá nervosa, Lua? - Rayanna perguntou, carinhosa. Fazia carinho nos cabelos de Pedro, que estava com a cabeça apoiada no mármore da mesa e aparentemente dormia.

- Um pouco. - ela tentou sorrir, mas quase vomitou.

- Bom, vamos lá! - Micael exclamou e Pedro tirou a cabeça do mármore, com os olhos vermelhos de sono. Sophia abraçou o namorado pelos ombros, espiando pela sua orelha enquanto ele abria o pacote. - Eu tenho… Dois C’s e um D.

Todos bateram palmas, animados. Micael, assim como Pedro, Chay e Thur, estava pouco se fodendo pra faculdade, mas suas notas estavam boas, e ele ficou feliz por isso. Sophia beijou-lhe a bochecha e começou a abrir o dela.

- Eu tenho… - foi dizendo, mas Micael a interrompeu.

- Dois A’s e um B! - exclamou, maravilhado.

- Passei! - ela gritou, jogando o envelope longe. - Aaah, não acredito!

- Então eu vou namorar uma médica? - Micael mordiscou sua orelha.

- Parabéns, Sophia! - Lua sorriu, feliz pela amiga. Todos os outros a parabenizaram, pois sabiam o quanto ela queria aquilo. Passados os parabéns eles se entreolharam, nenhum se oferecendo para ser o próximo. Mel, impaciente, abriu o dela de uma vez só.

- Eu tenho… Dois A’s e um C. - ela entortou a boca. - Eu precisava de dois A’s e um B.

- Cala boca! Você precisava de dois A’s e um D! - Rayanna exclamou. - Lembra que nós entramos no site juntas?

- Ah é! - ela suspirou, aliviada. - Bom, então eu entrei. - sorriu. Todos a parabenizaram enquanto Chay abria suas próprias notas, rindo. Havia chutado tudo.

- Hm… Dois E’s e um C. - ele gargalhou. - Pra quem chutou tudo eu mandei bem até! Teria passado na…

- Universidade dos Perdedores. - Pedro brincou, abrindo seu próprio envelope. - Um A, um D e um F.

- F? Você tirou um F? Como conseguiu tirar um F? - Thur exclamou, incrédulo. - Você mijou na prova?

- Deixei em branco. - ele deu de ombros. - Estava com sono.

Rayanna riu e olhou para o próprio envelope. Ela precisava de um A e dois B’s pra cima, mas havia saído da prova quase chorando, alegando ter ido muito mal.

- Quer ajuda, amor? - Pedro perguntou, passando a mão por seu cabelo carinhosamente. - Eu posso abrir pra você.

- Não. Não… - ela suspirou, pegando o papel entre as mãos trêmulas. - Eu posso fazer isso.

A sala inteira ficou em silêncio enquanto ela abria o envelope. Foi tirando o papel aos poucos.

- B… - disse, puxou mais um pouquinho. - A… - então ela respirou fundo e tirou todo o papel. - B! EU PASSEI!

A sala inteira explodiu em parabéns e comentários sobre como Rayanna era cagada. Quando finalmente todos ficaram em silêncio, Lua olhou para o próprio envelope. Depois para Thur.

- Quer que eu vá primeiro? - ele perguntou, apertando sua mão.

- Eu não aguento mais esperar! - ela exclamou, ignorando sua pergunta e rasgando o envelope de uma vez só. Esticou o papel na direção de Thur e ordenou: - Lê aí.

Ela fechou os olhos, nervosa. Thur pegou o papel entre os dedos e não soube direito como contar aquilo…

- Lua, eu… - ele murmurou, com a voz trêmula e ela virou para ele. Seus olhos se encontraram e Thur tinha uma expressão séria, triste… Que logo se desfez num sorriso e ele exclamou: - Eu vou te visitar em Oxford! - gritou, mostrando os três A’s que brilhavam no papel.

Lua pulou da cadeira e sentou-se em seu colo. Os dois se beijaram apaixonadamente enquanto os amigos faziam piadas e comentários não muito politicamente corretos. Se beijaram por um bom tempo, até que Chay deu com o envelope de Thur na cabeça dos dois.

- Sua vez, playboy.

Thur riu, rouco, e abriu o envelope de qualquer jeito, jogando-o em cima da mesa sem nem ao menos ler, só para poder voltar a beijar Lua. Todos riram com o gesto, mas, aos poucos, a sala ficou no mais total silêncio. Lua e Thur só foram perceber depois de algum tempo, ao abriram os olhos juntos.

- O que fo… - Lua ia perguntar, mas bateu os olhos no papel em cima da mesa, que mostrava três A’s tão brilhantes quantos os seus. Depois ela olhou para Thur, que também analisava o papel não muito surpreso. - Thur, você tirou três A’s. - disse, debilmente.

- Ah, eu sei. - ele deu de ombros. - Aquelas provas estavam ridículas, não?

Todos o olhavam com a boca aberta.

- O quê? - perguntou, achando graça.

- Thur, você passou o seu high school e o seu college inteiro dormindo e matando aula para encher a cara no Lou’s. - Pedro murmurou, pasmo.

- E quando estava realmente prestando atenção, o que rolou no máximo umas cinco vezes na sua vida, era por que a professora era gostosa. - Chay completou. Micael só olhava para o papel em cima da mesa, embasbacado.

Lua olhava para o namorado sem saber o que dizer. Ele era um gênio! Por todo aquele tempo pensou que Thur fosse um idiota que não soubesse nem quanto era dois mais dois e ali, em cima da mesa, estava a prova de que ele era muito inteligente, talvez mais inteligente do que ela própria.

Thur mordeu o lábio inferior.

- Vocês acharam mesmo que meu pai só estava bravo por eu estar na banda e num colégio público porque bandas não dão futuro? - Thur perguntou, entediado. - Ele não queria que eu “desperdiçasse meu QI altíssimo”. - ele completou, imitando o pai perfeitamente.

Ouviram-se buzinas do lado de fora. Era a pequena Van que os levaria para a turnê. Nada de ônibus gigantes e hidromassagens. Não, eles iriam em uma Van junto com os instrumentos. Era o máximo que Lua conseguira com o orçamento apertado - orçamento esse que ela havia inventado, pois usara o dinheiro do prêmio de física para ajudá-los, o que a deixou sem carro - e o fato de sua madrasta ter abandonado totalmente o estúdio em função do filho. O que era bem legal, já que Lua adorava comandar aquele estúdio e faria faculdade de administração exatamente para poder cuidar direito dele.

- Acho que é a nossa carona, menino prodígio! - Chay exclamou, bagunçando o cabelo já bagunçado de Thur.

Os oito saíram, mas logo cada casal estava se despedindo num canto. Lua ficou perto da porta com Thur.

- Promete que vai cuidar da casa direitinho? - ele pediu, fazendo bico.

- Prometo! Vamos dar várias festas legais aqui. - ela piscou pra ele, que fez uma careta. - Não se preocupe com a casa, amor, de verdade.

- Eu volto rapidinho, Luazinha. Um mês passa super rápido! - ele a segurou pela cintura. - Volto pra te fazer implorar por mais.

- Ah! Quando você precisa ser romântico você não é! - ela fez biquinho, rindo. Estava feliz pelo crescente sucesso da banda, mas no fundo, beeem lá no fundo, queria chorar por ter de ficar sem ele por um mês inteiro. Mas não daria esse gostinho a ele. Não de novo. A Van buzinou mais uma vez e os guys já guardavam as malas. - Vai lá, Thur. Faça uma boa viagem e não se esqueça de me ligar!

Thur ficou olhando para a namorada e sentindo-se como se alguém estivesse arrancando-lhe um braço.

- Eu te amo, tá? - ele murmurou, juntando mais seus corpos. Lua espalmou as mãos em seu peito e ficou alisando sua camiseta. - Não esquece disso. Eu te amo muito.

- Eu também te amo, Thur.

Os dois trocaram um beijo apaixonado e ele saiu correndo ao terceiro toque da buzina. Entrou na Van e os quatro babacas apaixonados ficaram acenando para suas respectivas namoradas sem parar. Quando o carro virou a esquina as amigas se entreolharam, tristes.

Enquanto olhava com tristeza para o fim da rua, Lua recebeu uma mensagem no celular. Era sua mãe, que ordenava: “vá até sua casa agora mesmo!”. Ela mostrou a mensagem para as amigas e as quatro foram juntas no carro de Rayanna. Ao chegarem lá, se depararam com o carro de Adriana ao lado de uma Captiva preta com um laço vermelho em cima. Rayanna estacionou mal e porcamente e Lua saiu correndo do carro.

- Promessa é promessa. - ouviu sua mãe dizer. Ela analisou o carro, maravilhada. Ao lado de sua mãe estava seu pai, Clara e Diego, que dormia tranquilamente. - Gostou?

- Mãe, eu… - ela levou as mãos a boca. - Eu amei!

- Então você me perdoa? - ela pediu, com os olhos cheios de lágrima.

Lua, que odiava aquelas demonstrações públicas de afeto, apertou a mãe num abraço e murmurou que sim, a perdoava.

- Ótimo! Então vai dar uma voltinha no seu carro novo! - exclamou, afetada. Clara pediu cuidado e seu pai somente sorriu, exausto.

Lua colocou as três amigas no carro e foi dar uma volta no quarteirão. Ligou para Thur contando a novidade, e ele ficou muito feliz por ela. Então ela desligou e suspirou.

- Sabe de uma coisa? - perguntou e as amigas negaram com a cabeça. - Eu posso dizer com certeza que eu noiei.

- Noiou? - Rayanna perguntou, curiosa. - O que diabos é isso?

- É, noiei! - Lua exclamou. - Pirei, enlouqueci, perdi a cabeça…

- Quando conheceu Thur melhor? - Sophia perguntou, maliciosa.

- Acho que eu perdi a cabeça bem antes disso. - ela murmurou, observando o céu azul sem ligar para o comentário promíscuo da amiga. - Naquela joelhada que dei em seu estômago. Lembram disso?

As quatro amigas riram e ficaram comentando sobre o famoso dia. Passaram o resto do dia juntas, como não faziam há muito tempo…

Thur encostou a cabeça no acento do banco de couro logo depois de desligar o celular.

- A Lua ganhou um carro da mãe! - exclamou.

- Que irado. - Pedro murmurou, quase dormindo. Os outros dois disseram coisas parecidas.

- É… - ele apoiou a cabeça no vidro e ficou batendo com o dedo indicador no lábio inferior, como um louco. Chay achou graça no gesto e perguntou:

- Cara, cê tá noiado?

- Hã? - ele tirou o dedo da boca e olhou para o amigo. Pedro e Micael fizeram o mesmo.

- Se tá drogado? Chapado? - Chay explicou melhor, fazendo Thur sorrir.

- Ih, há muito tempo… - ele encostou a cabeça no vidro novamente. - Não sei se você reparou, mas eu estou assim desde que tomei aquele chute no estômago.

Os quatro riram e passados alguns segundos Pedro pediu para o motorista parar em algum lugar para que ele pudesse “mijar”. A Van encostou na estrada e ele abaixou a calça no mesmo instante em que um ônibus lotado de freiras passava por eles. Elas vaiaram e jogaram cascas de banana em Pedro, que quase morreu de vergonha.

Os quatro contaram aquela história as namoradas ao voltarem da turnê e sempre que tinham a oportunidade zoavam o amigo nas entrevistas ao relembrarem-na. Thur atualmente contou a mesma história para um repórter no tapete vermelho da estréia de Harry Potter e As Relíquias da Morte. Lua, ao seu lado, usando um Valentino vermelho, riu muito, e Thur aproveitou o momento e anunciou, pela décima sétima vez, a data do lançamento do CD. O repórter, de saco cheio daquelas mesmas histórias e de bandas engraçadinhas como o Phoenix, pediu desesperadamente para que Thur lhe contasse alguma coisa mais interessante, para que ele pudesse ir pra casa passar o final de semana com os seus filhos. Thur sorriu, com dó do jornalista sensacionalista que tinha que ficar ali, no frio, buscando uma história boa, e passou a mão pela barriga de Lua, anunciando pela primeira vez que sua mulher estava grávida de dois meses.

Fim.

WEB - O Melhor pra Mim - 116

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:49, hospital.

Guys:

- Onde ela está? - Sophia gritou com Mel e Rayanna quando nós sete nos encontramos.

Assim que chegamos ao hospital encontramos Micael e Sophia na entrada, e os dois me explicaram o que estava acontecendo.

Resumino tudo: Eu seria cunhado!

- Ela disse que ia dar uma volta! - Mel respondeu, assustada com o tom autoritário de sua voz e sem entender nada. Quando me viu parado ali seus olhos se iluminaram. - Arthur!

- Arthur, você vai atrás dela e vai achá-la! - Sophia espalmou as duas mãos em meu rosto e o virou para ela. - Eu não quero mais que você faça a minha melhor amiga sofrer! Ela já sofreu muito nessa vida, sempre tendo que cuidar de todos e de tudo, abdicando de todos os seus gostos e vontades pelos outros. - de longe o pai de Lua olhava aflito para o corredor, como se nós não existíssemos. - E se você não for atrás dela agora e aceitar suas desculpas eu juro que eu… Eu… Eu nem sei o que eu faço! - Sophia gritou, dando dois tapas de leve no meu rosto. - Acorda, se recomponha e tente não parecer tão bêbado!

Olhei para ela, pasmo. Depois de todos os gritos que todos estavam dando comigo e depois da corrida de fórmula 1 que Chay participou para me trazer ao hospital no menor tempo possível, o fato de eu ter bebido era a menor das minhas preocupações. Toda a bebedeira agora estava escondida num canto obscuro do meu cérebro e eu estava totalmente sóbrio.

Enquanto subíamos de elevador para o andar em que todos estavam não podia deixar de me perguntar: Por que eu sempre confiava nas pessoas erradas? Ela não havia saído de mãos dadas com Eric e eu havia a julgado erroneamente. Aquele gordo filho da puta havia mentido pra mim!

Senti umas quatro mãos nas minhas costas me empurrando e logo em seguida eu estava vagando pelo hospital.

Segui por uns cinco corredores sem prestar a mínima atenção em minha volta. De vez em quando esbarrava com enfermeiros e médicos, que não diziam nada, andando como zumbis.

Depois de rodar aquele hospital inteiro e quase perder a esperanças de encontrá-la, cheguei numa outra sala de espera, completamente vazia. Parecia uma sala fantasma. Sentei-me em um dos bancos de plástico azul, cansado de tanto andar. Porque hospitais tinham de ser tão grandes?

Ao mesmo tempo que me preparava para voltar a caminhar pude ouvir alguns gemidos baixinhos. Alguns soluços. Olhei em volta, mas não tinha ninguém por ali.

Será que… Será que era a Murta que Geme?

Fechei os olhos, me concentrando, e pude detectar os gemidos vindos do vão entre máquinas de refrigerante e doces.

Caminhei a passos largos até lá, não me surpreendendo muito ao encontrar Lua. O que me surpreendeu de verdade foi encontrá-la chorando.

Lua? Chorando?

Agachei-me e ela pareceu não ter percebido a aproximação de um estranho.

- Luazinha? - chamei, então ela levantou o rosto, vermelho e molhado. Arregalou os olhos. - Lua, eu tô aqui. Não precisa mais chorar.

Ela se levantou num pulo, atravessando a sala de espera. Levantei-me também, e fiz menção de me aproximar.

- Fica aí! FICA BEM AÍ! - ela gritou e eu obedeci.

Meu Deus, ela sabia como ser assustadora.

- EU ESTOU CANSADA DISSO,ARTHUR! CANSADA!

- Lua, não precisa gritar, não tem ninguém aqui pra atrapalhar a conversa. - pedi, nervoso. Ela respirou fundo, mas meu apelo funcionou, porque ela abaixou o tom de voz.

- Arthur, você tem ideia do que minha vida se transformou nos últimos dias? Essa não sou eu! Eu não me apaixono, eu não sou sociável, eu não tenho crises existenciais, eu não gravo vídeos pedindo desculpas, eu nem ao menos peço desculpas! Arthur, eu não choro. Você consegue entender isso? - ela deixou os ombros caírem, e outra lágrima rolou pelo seu rosto. - Olha o que você fez comigo…

- Eu entendo isso. Esse também não sou eu, Lua. Eu não fico com uma menina só, eu não penso em ninguém antes de dormir, eu não paro de fumar por alguém, eu não brigo com os meus amigos por uma garota, eu…

Ficamos em silêncio, nos encarando.

- Eu te perdôo. Eu quero ficar com você. - finalmente disse. Falei de uma vez. Porque, afinal, era o que eu mais queria.

- Por quê? - ela perguntou, impassível.

- Porque agora eu vejo que você não queria me magoar, foi só uma besteira, e… - Não isso. - ela resmungou, impaciente. – Por que você quer ficar comigo? - tornou a perguntar, lentamente, como se eu fosse retardado. - Me dê um bom motivo.

- Bom, eu… - olhei bem para ela. Aqueles olhos chorosos, o rosto vermelho e a expressão séria… Ela era a garota mais linda do mundo, a única que eu queria ao meu lado. - Eu quero ficar só com você, Lua, com mais ninguém. Só você me deu um chute no estômago, só você corre à noite num parque escuro, só você consegue fumar o Lucky Strike, só você tem uma Gibson Les Paul, só você sabe cantar The Clash, só você entende de música tanto quanto eu, só você tem uma voz linda, só você usa Vans, só você consegue e tem o dom de me ignorar, só você tem o dom de me tirar do sério, só você tem todo dia um sabor, só você pula da janela usando um mini-vestido, só você é uma garota e precisa de ajuda com roupas, só você pediu a minha ajuda para algo e me tratou como se eu fosse alguém, como se eu tivesse algo a oferecer. Só você é dona de um estúdio, só você me fez ficar completamente embasbacado ao ficar semi-nua, só você cuida de mim bêbado, só você sabe fazer com que um bando de garotas se apaixonem pelo som da minha banda, só você vira completamente outra pessoa quando está bêbada, só você sabe me xingar e ainda me deixar com um sorriso idiota no rosto - a cada “só você” Lua deixava outra lágrimas escapar e soluçava. -, só você tem as amigas perfeitas pros meus amigos, só você manda as mensagens mais engraçadas do mundo, só você pediu pra Alana me dar uma surra, só você gosta de filmes com corujas et’s, só você gosta de dinossauros, só você me faz quase ser expulso do colégio, só você me faz borbulhar de ciúmes como um babaca apaixonado, só você me faz admitir que eu a amo, só você me salva de uma surra, só você me faz atravessar o Brasil  pra participar de um baile de debutantes, só você me faz quebrar a perna, só você me faz de capacho pra realizar todos os seus gostinhos. É só você, Lua. - comecei a caminhar em sua direção, e ela não fez nenhuma objeção. - É só você que eu quero, só você que eu preciso, só você que eu amo!

Parei em sua frente. Nossos corpos estavam há centímetros de distância. Seus lábios estavam na altura do meu queixo. Eu podia sentir o seu cheiro, e era a única coisa que eu precisava, pro resto da vida.

- Bom… Se isso for verdade, eu até posso considerar… - ela foi dizendo, e eu me curvei para poder beijá-la, sendo interrompido por seu dedo em meus lábios. – Por que você demorou tanto?

Suspirei.

- Porque seu vizinho me disse que você saiu de mãos dadas com Eric e eu fui encher a cara num pub qualquer. - respondi, envergonhado.

- Eu não acre… - ela foi dizendo, mas eu a calei com um beijo.

Ela ainda tentou falar, mas eu segurei sua nuca com carinho e ela se desmanchou. Envolveu os braços nos meus ombros e ficou na ponta dos pés, se entregando completamente ao beijo.

Apesar da máscara de garota forte, Lua não passava de uma garotinha insegura que só precisava ser protegida de vez em quando. E eu a protegeria enquanto ela deixasse que eu o fizesse.

Aquela era minha garota. Minha, só minha. E mais nada a separaria de mim.

- LUA! É UM MENINO! VOCÊ TEM UM IRMÃOZINHO! - ouvi a voz aguda de Mel atrás de mim.

Bom, aquilo iria nos separar.

Mas só por alguns minutos…

WEB - O Melhor pra Mim - 115

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:45, hospital.

Girls:

- Meninas, vou dar uma volta, estou meio nervosa. - menti para Mel e Rayanna, que concordaram.

Depois de zanzar sem destino pelo hospital inteiro eu achei outra sala de espera, com máquinas de refrigerantes e doces. Peguei algumas moedas no bolso e coloquei na máquina, apertando a opção Coca-Cola. Ela pegou meu dinheiro, fez um barulho e nada. Minha Coca-Cola ficou presa.

Não. Aquilo não estava acotecendo. Não mesmo.

Apertei a alavanca para ter meu dinheiro de volta e novamente não fui obedecida.

Tudo! Tudo acontecia comigo! Nada nunca dava certo!

Olhei em volta, não encontrando ninguém por perto. Hospitais eram os lugares mais cheios do mundo, mas quando eu precisava todos pareciam sumir da face da terra. Era tão injusto! Minha vida era tão injusta!

No momento seguinte eu esmurrava e dava chutes na máquinha, sem cessar.

NADA! Nada dava certo pra mim! Meus pais estavam separados, me deixando com aquela eterna culpa, meu pai se importava mais com o seu novo filho do que comigo, minha madrasta era muito mais legal do que eu jamais seria, minha mãe era uma mesquinha hipócrita, meu padrasto talvez nem soubesse o meu nome e meus dois meio-irmãos eram uns imbecis. Minha cachorra só gostava de mim porque eu a alimentava, minhas únicas amigas já estavam de saco cheio do meu mal-humor e da minha frieza, meus amigos - que só eram meus amigos por interessa pela banda - só me suportavam porque estavam namorando minhas amigas e o único, o ÚNICO, cara por quem eu havia me apaixonado na VIDA não se importava nem um pouco comigo.

Mais chutes. Mais socos.

Minhas mãos e meus pés já estava doendo, mas eu não me importava. Eu queria mais era quebrar algum osso pra poder esquecer um pouco da dor emocional que estava sentindo.

E de repente, aconteceu. O que eram… Aquilo eram… Lágrimas?

Eu estava chorando?

Lua Blanco estava… Chorando?

Descontrolei-me. Parei de descontar minha frustração na coitada da máquinha e me enfiei no vão entre as duas. Encostei as costas na parede, chorando, e escorreguei até o chão. Enfiei as duas mãos no rosto, deixando todas as lágrimas que eu não chorei minha vida inteira escorrerem como cachoeiras por meu rosto. Chorei pela separação dos meus pais, chorei por tratar todos tão mal, chorei pela situação miserável em que me encontrava.

Chorei pela minha vida.

Chorei por Arthur.

Chorei por estar apaixonada.

Chorei por ser uma mentirosa.

Simplesmente chorei.

WEB - O Melhor pra Mim - 114

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:37, um pub qualquer.

Guys:

Senti o celular vibrar e parar. Vibrar e parar. Vibrar, vibrar, vibrar e parar. Eu não ia atender. Não estava afim de mais um discurso boiola dos meus amigos tentando me animar. Meu objetivo do dia era entrar em coma alcólico.

Depois de algum tempo ouvi o celular vibrar de novo, mas não durou tanto tempo quanto os outros. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, dois caras me arrastavam para fora do pub.

Eu estava tão fora de mim que nem argumentei. Era legal aquela sensação de estar caindo… Caindo…

Então eu caí.

- Caralho, Arthur, a gente não pode deixar você sozinho por um segundo que você enche a cara e fica bêbado? - Pedro me deu uma bronca; eu estava jogado na calçada do pub. Pedro me olhava e Chay falava com alguém no celular.

- Sim! - exclamei e ri sozinho.

- O Micael voltou pro hospital, vamos levar ele lá. - Chay avisou. - Pedro, compra uma água pra ver se a gente consegue deixá-lo sóbrio.

E então eu estava dentro do carro de Chay, falando um monte de merda, enquanto os dois me ignoravam completamente. Depois de Pedro jogar água no meu rosto, me fez engolir o resto, o que melhorou um pouco meu estado.

Aonde eu estava indo? O que estava acontecendo? Quem estava no hospital?

Eu queria a resposta para todas aquelas perguntas, mas eu só conseguia dizer o quão feliz estava por tê-los por perto.

Patético.

WEB - O Melhor pra Mim - 113

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:32, hospital.

Girls:

- Ali está ele! - Sophia exclamou, e eu dei um pulo tão grande na cadeira que quando minhas nádegas bateram novamente no plástico azul eu dei um pequeno gritinho de dor. Mas não era Thur, era Micael, e eu havia me machucado por nada.

Mas que merda.

- Lua, você tá legal? - ele perguntou, assustado com o meu gritinho de dor, depois de beijar Sophia. Então ele arregalou os olhos. - Você… Você está aqui!

- Sim, eu estou, minha madrasta está tendo um filho, lembrado? - perguntei. - Mas, por… - e antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele já tinha disparado pelo corredor, procurando sinal com o celular.

Olhei para Sophia, que pensou meio segundo antes de correr atrás dele.

Mas o que diabos estava acontecendo?

WEB - O Melhor pra Mim - 112

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:27, um pub qualquer.

Thur:

Alguns velhos me olhavam com curiosidade. Outros com indiferença. Alguns até com inveja. Mas tenho certeza que todos pensavam a mesma coisa: “O que um fedelho está fazendo aqui a essa hora do dia?”

Os pubs, do horário em que abriam até umas 18h eram frequentados por velhos, que jogavam cartas e falavam mal de suas esposas. Depois que esses se retiravam os jovens entravam. Mas eu estava ali, um erro no sistema.

- Whisky. Puro. - pedi, sentando-me no bar.

- Posso ver sua identidade? - o cara atrás do balcão pediu.

Entreguei meu RG a ele, que avaliou para ver se era falso e em seguida colocou o copo na minha frente, devolvendo o documento.

Virei de uma só vez e pedi uma cerveja. Pretendia acordar só no dia seguinte, em algum beco, pois pelo menos assim me esqueceria dela de uma vez por todas.

No que eu havia me transformado? Num babaca apaixonado, que faz tudo pela amada? Que coisa mais imbecil! Aquele não era eu, sofrendo por uma garota que claramente não estava afim.

“A vida continua” pensei “e você vai seguir em frente”.

Era a única coisa que eu podia fazer.

A única.

Liguei para casa.

- Alô? - Micael atendeu, sonolento.

- Micael? É o Thur. - murmurei.

- Thur! Beleza?

- Onde você tá?

- Em casa jogando video-game. Por quê?

- Nada… Acabei de descobrir que a Lua saiu por aí com o Eric. Estou num pub aqui no centro, vou precisar que você me resgate hoje à noite, mas não garanto que vou estar sóbrio.

- Ah, beleza… - ele disse, distraído. - Pera aí que eu já te ligo, Thur, acabei de receber uma mensagem da Sophia.

- Beleza. Não esqueça o nosso trato! - exclamei, antes de desligar o telefone.

WEB - O Melhor pra Mim - 111

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:27, hospital.

Girls:

Ele não havia me respondido. Nem dado sinal de vida.

Maldita hora que esqueci meu celular atrás do arbusto em que observava sua casa.

Meu pai andava de um lado para o outro, afundando o chão da sala de espera. Quando cheguei - com Sophia, Mel e Rayanna - Clara já estava no quarto. Em poucos segundos eu finalmente seria irmã mais velha.

Eu suspeitava que meu pai e Clara já sabiam se era menino ou menina e não queriam me contar. Se minhas suspeitas fossem verdadeiras eu poderia dizer que tinha os pais mais maldosos do universo.

- Pai, pare de andar em círculos, isso não vai fazer você ser pai mais rápido. - virei os olhos, estressada. Onde estava  Arthur? Não era agora que ele entrava pelas portas do hospital com um buquê de rosas e me pedia em casamento? Os filmes românticos não eram assim?

Meu pai me ignorou e continuou andando. Olhei para o lado com o cantos dos olhos e observei Sophia, Mel e Rayanna cochicharem.

- É, eu sei que ele não veio. Vocês não precisam cochichar. - murmurei, encostando a cabeça na parede fria.

- Ah, querida, não fique assim. Talvez ele ainda esteja em choque! - Rayanna deu dois tapinhas no meu ombro.

- É! A qualquer momento ele vai entrar por essa porta e dizer que te ama! - Mel sorriu.

- Ele nem sabe que eu estou aqui. - murmurei.

Elas suspiraram. O celular de Sophia estava sem bateria e Mel e Rayanna haviam esquecido os seus em casa com a pressa toda da situação, afinal de contas, elas adoravam Clara. O celular do meu pai estava dentro da bolsa do bebê, dentro do quarto que nós não podíamos mais entrar e os telefones do hospital não faziam ligação para fora. Não tinha mais ninguém na sala de espera além de nós e a enfermeira atrás do balcão não me deixou usar o telefone dela.

Estávamos totalmente incomunicáveis.

- Eu mandei uma mensagem para o Micael antes da bateria acabar, ele deve estar vindo pra cá e vai avisar o Thur! - ela tentou me acalmar.

Mas lá no fundo eu sentia que ele não estava nem aí. Que acabar tudo era o melhor. Que eu não o merecia mesmo.

Suspirei. Vida cruel…

WEB - O Melhor pra Mim - 110

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:22, QG do inimigo.

Thur:

- Lua! Lua! - eu estava quase esmurrando a porta de entrada. Havia tocado a campanhia várias vezes e nada. Estava pensando seriamente em arrombar. - Sr. Blanco? Clara? Alguém?

Depois de todas as minhas tentativas frustradas, sentei-me na calçada de sua casa e disquei o número do seu celular. Caixa postal mais uma vez. Onde, diabos, ela estava?

Liguei para Sophia, que chamou até cair na caixa postal, para Mel que foi direto na caixa postal e para Rayanna, onde uma mensagem de que o aparelho não estava autorizado a receber aquele tipo de ligação estava me irritando profundamente.

Que tipo de ligação? Desesperada?

Os guys estavam em casa e não estavam sabendo de nada. Claro. Era típico deles não saber nada.

Ah, meu Deus, eu estava colocando a culpa até nos meus amigos!

Eu estava enlouquecendo…

- Está procurando a garota que mora aí? - uma voz masculina perguntou ao meu lado.

Virei o rosto para encontrar um cara gordo, que usava óculos e uma regata branca, que desenhava perfeitamente seus seios masculinos.

- Sim! - exclamei, me levantando. - Você sabe onde ela está?

- Ah, sei sim… - o gordinho sorriu. - Ela saiu de mãos dadas com um cara… - ele deu de ombros, acabando com um pedaço de pizza em um pedaço.

Ela… Ela o quê?

- Qual… Quem… Que cara? - consegui pronunciar. Minha cabeça girava.

- Ah… Um cara… Acho que o nome dele era… - ele coçou a nuca.

- Eric? Eric? - perguntei, com a boca mole.

- Isso mesmo! Eric! - ele sorriu, vitorioso. - Ela dizia coisas como “Ai, Eric, eu te amo tanto!”

Olhei para ele. Ele tinha um bigode infantil, a barba por fazer, os olhos meio vesgos e óculos fundo de garrafa. Além de ser gordo e totalmente branquelo.

Não parecia um cara que mentiria com uma coisa séria só para brincar.

Não é?

- Obrigado. - respondi, como um zumbie, indo até meu carro.

Disparei pela rua, não percebendo o sorrisinho diabólico que o gordo lançou para sua pizza.

WEB - O Melhor pra Mim - 109

Segunda-feira, dia 16 de Novembro, 14:12, hospital.

Girls:

Eu estava na porta da casa dele e o telefone tocou. Nunca, em 17 anos de vida, eu pensei que receberia aquela ligação num momento tão crucial.

Mas essa é a vida, não?

- Alô? - disse, baixinho. Observei Thur procurar por alguém dos dois lados da rua, com o meu pacote nas mãos. Fiquei me sentindo a pessoa mais idiota do mundo, mas aquela era minha última chance.

- Lua? Lua? - meu pai gritou do outro lado.

- Nossa, pai, o que foi? - perguntei, parando de prestar atenção no que estava rolando na porta da casa.

- Lua, Clara entrou em trabalho de parto! Estamos indo para o hospital!

Deixei o celular cair no chão.

WEB - O Melhor pra Mim - 108

Dei play no DVD e esperei. Depois de alguns segundos na tela preta a imagem apareceu, meio desfocada. Quando finalmente entrou no foco pude ver Lua sentada na cama com o violão nas pernas. Não um violão qualquer, mas um Taylor.

Mimada…

‘Oi, Thur, tudo bom? Então, eu… Eu não sabia como pedir desculpas, então resolvi gravar um vídeo. Acho que essa música diz tudo que eu gostaria de dizer à você, mas não tenho coragem.’

Ela olhou para baixo, o cabelo cobrindo seus ombros nus. Começou a dedilhar o violão. Por mais que eu estivesse puto, vê-la tão indefesa daquele jeito fez meu corpo inteiro esquentar.

When I was younger I saw (Quando eu era mais nova eu vi)

my daddy cry and curse at the wind… (o meu pai chorar e praguejar ao vento…)

He broke his own heart and (Ele partiu seu próprio coração e)

I watched as he tried to re-assemble it… (eu assisti enquanto ele tentava remontá-lo…)

And my mamma swore she would (E minha mãe jurou que jamais)

never let herself forget… (se deixaria esquecer…)

And that was the day that I promised (E aquele foi o dia que eu prometi)

I’d never sing of love, if it does not exist, (Eu nunca cantaria sobre amor, se ele não existisse,)

but darling… (mas querido…)

Ela não olhava para a câmera, concentrada no violão. Sua voz era linda: Calma, firme e muito bem afinada. Só de ouvi-la falar era fácil perceber que ela deveria ter uma voz muito bonita, mas nunca pensei que fosse tão bem treinada.

Senti-me um pouco invasivo. Ela cantava sua própria vida pra mim.

You are the only exception, (Você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception! (você é a única exceção!)

Eu? Eu era a única exceção?

Olhava fixamente para a tela, observando-a cantar. Seus lábios se moviam de um jeito gracioso, e, aos poucos, toda a raiva que eu estava sentindo, desapareceu.

Ela era um ser humano. Seres humanos erram.

Maybe I know, somewhere, deep in my soul, (Talvez eu saiba, em algum lugar, no fundo da minha alma,)

that love never lasts… (que o amor nunca dura…)

And we’ve got to find other ways (E nós temos que arranjar outros meios de seguir)

to make it alone, or keep a straight face (em frente sozinhos, ou manter a cabeça erguida…)

And I’ve always lived like this! (E eu sempre vivi assim!)

Keeping a comfortable… Distance… (Mantendo uma distância… Confortável…)

And up until now I swored to myself (E até agora eu jurei pra mim mesma)

that I’m content with loneliness, (que eu era feliz com a solidão,)

because none of it was ever worth the risk, (porque nada disso nunca valeu o risco,)

 

but you are the only exception! (mas você é a única exceção!)

But you are the only exception, (Mas você é a única exceção,)

but you are the only exception, (mas você é a única exceção,)

but you are the only exception… (mas você é a única exceção…)

Ela continuou tocando, alheia à câmera. Era incrível como sua voz parecia transparecer a alma.

Eu podia sentir o que ela estava sentindo…

I’ve got a tight grip on reality, (Eu tenho um forte controle sobre a realidade,)

but I can’t… Let go of what’s front of me here! (mas não posso… Deixar o que está aqui diante de mim!)

I know you’re leaving in the morning, when you wake up, (Eu sei que você vai embora pela manhã, quando acordar,)

leave me with some kind of proof it’s not a dream! (me deixe com alguma prova de que isso não foi um sonho!)

Depois da subida da voz, ela respirou fundo e olhou para a lente pela primeira vez. Seus olhos estavam um pouco vermelhos, não de quem tivesse chorado, mas sim de que estava segurando o choro. Sua voz ficou um pouco embargada, mas em nenhum momentos as lágrimas vieram.

Claro que não viriam. Lua não chorava.

Ela cantou a última parte da música olhando pra mim. Diretamente pra mim.

Eu estava hipnotizado. Como ela fazia aquilo? Qual era seu poder sobre mim?

Havia mentido sobre uma coisa muito séria e só com uma música fazia eu me sentir o cara mais imbecil do mundo por ter brigado com ela. Qual eram os seus poderes? Ou melhor, qual era o meu problema?

You are the only exception, (Você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception! (você é a única exceção!)

You are the only exception, (Você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception, (você é a única exceção,)

you are the only exception! (você é a única exceção!)

And I’m on my way to believing… (E eu estou quase acreditando…)

Oh and I’m on my way to believing… (Oh, e eu estou quase acreditando…)

Ela acabou a música e colocou o violão de lado. Levantou o rosto e olhou bem para a lente da câmera.

‘Agora você entende por que é tão difícil pra mim?’

Então a tela da TV ficou preta de novo.

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